Querida, Laurel

     
          A pouco terminei de ler suas cartas, pela segunda vez. Enquanto lia as últimas páginas, não resisti e coloquei para tocar Sweet Child  O´ Mine e...wow. As lágrimas começaram a cair, e não consegui controlar os soluços, foi quase como a primeira vez, só que dessa vez eu senti, senti de verdade. Sabe, muita coisa mudou desde que li suas cartas pela primeira vez, não li naquela mesma janela, não chorei escondida na cama do meu avo, não cantei na varanda e nem ao olhar as estrelas, não tomei meu café com leite e nem senti o quentinho das meias e nem o gelado do chão.
Lembra de um dos meus maiores medos? sim, ele se concretizou. Mas hoje eu me toquei de algo, de algo que por muito tempo eu deixei de lado, lembrei do antes, de quando acreditava que havia perdido a mim e até o início do dia eu ainda acreditava nisso.
          Eu parei por algumas horas de escrever, e acabei ouvindo aquela mesma trilha sonora, aquelas mesmas músicas clássicas. Tem sido difícil, Laurel...mas eu sei que preciso enfrentar isso, sei que as pessoas só vão me conhecer de verdade se eu me permitir a isso. E talvez tenha sido isso que reaprendi com  você, me permitir de novo a ser eu mesma. Ouvir aquelas músicas como antes, reparar em cada parte da letra, ouvir Nirvana e sentir como se o Kurt conversasse comigo, ouvir Janis  Joplin cantando como se colocasse cada batida do coração naquilo, ler sobre a coragem de Judy e sentir vontade de voar também. Ler tudo isso novamente foi sim, de certa forma, um reencontro.
            Agora me encontro aqui, jogada no chão do meu quarto ouvindo as músicas da Vitória de novo, lembrando de 4 anos atrás e de como eu sentia falta disso. Sei que as coisas vão ficar mais  difíceis agora, mas tudo bem, acredito que sim, que vou conseguir, vou conseguir continuar como antes, mas hoje, não sendo quem fui há dois anos e nem só sendo quem sou hoje, sendo quem está a se descobrir e a se lembrar. Obrigada, Laurel. Ler as cartas foi como ler você, ler seu sentir. E, é...talvez eu tenha conhecido seu coração, acho. E vou te contar, viu ? eu fiquei encantada com ele, por favor não pare de escrever, mesmo que chegue a  cogitar a possibilidade de desistir, lembre do que sentiu ao escrever, do que houve ai dentro.
                      Suas cartas me recordaram algo que eu costumava fazer, que eu realmente me divertia muito fazendo. Eu costumava gravar áudios falando sozinha, contando sobre meus dias, sobre as pessoas que convivia, sobre meus segredos e adorava contar minhas histórias, era realmente divertido me ter como uma amiga, rir de mim e comigo, e até mesmo chorar até soluçar, deixar tudo aquilo salvo era como salvar uma parte de mim também, ali só entre mim e eu. Infelizmente, eu parei, mas talvez eu possa voltar, e acredito que vou, pois wow...eu realmente sinto falta.
           Sei que May está orgulhosa de você, assim como eu. Obrigada por me reacender, e por me lembrar que certas coisas ficam, que o tempo passa e tudo bem, pois ele passa mas continua aqui também. Os fragmentos da memória de cada um, ficam...deixando que nós possamos nos perder e reencontrar, e nos reinventar. Guardo com muito carinho suas cartas e tudo que foi compartilhado, obrigada.


Não sei ao certo se vai ser realmente diferente dessa vez, mas sei que pela primeira vez em muito tempo, me sinto de novo.





Até, 
y

saio em busca de um grande talvez.






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